Existe o fracasso da educação pública, e existem causas.

O fracasso da educação pública é algo assimilado pela opinião pública brasileira. É como falar sobre a corrupção na política. Admite-se, mas não se enxergam causas nem soluções. É mais um mal da sociedade brasileira que, grosso modo, nem adiantaria trazer para a discussão. Poderia ser mais um tema para humorísticos e discursos de palanque, mas o brasileiro não quer se envolver no problema. Rende reportagens na televisão, denúncias na imprensa, mas não é algo que tire o sono daquele que frequenta uma escola ou manda seu filho passar horas diárias em uma delas. Nada além de mais uma fraqueza do país.
Existe uma vasta bibliografia sobre o fracasso da escola pública. Mas que é feita para educadores preocupados com currículos e metodologias. Na verdade, é um diálogo que se efetiva apenas no meio acadêmico. E que acaba influenciando decisões políticas. Estatísticas, avaliações institucionais. No entanto, quem trabalha ou trabalhou na escola pública e, além disso, estudou nela, sabe que as causas de seu fracasso se evidenciam nas ações cotidianas ali praticadas. Há inúmeros culpados. Diretores, professores, alunos, pais, pedagogos, burocratas.
Existe uma máscara encobrindo as causas desse fracasso. E que encobre soluções que ultrapassem os âmbitos curricular e metodológico, com todos os recursos físicos que estes envolvem. A máscara cria falsos mitos para encobrir os verdadeiros culpados. Ela erige falsos mártires. Transforma em vítimas aqueles que são imediatamente culpados pelas ações que levam ao fracasso. E que insistem nessas ações.
Não há dúvida: as causas são muitas. Vão desde a aula mal dada à aula nunca dada. Entre uma e outra, a máscara é construída por todos que estão envolvidos no processo educacional. E atrás dela existe um mundo inacreditável, que a imprensa não denuncia, que o acadêmico não coloca em suas pesquisas, que a autoridade finge não perceber, e que existe porque inúmeras pessoas ganham com esse fracasso. E são ganhos de inúmeros tipos.
Por que não falar sobre isso? Mas falar do ponto de vista de alguém que presenciou cada uma das causas desse fracasso aqui apontadas. Desde a vida como aluno até o trabalho como professor e pesquisador. Alguém que estranhou a probição que recai sobre essa discussão. E que passou a ver a própria discussão oficial sobre o assunto como uma máscara. Dizer que a escola ganhou um computador ou que não o possui é só uma forma de não se dizer que o instrumento vai ser usado para burlar o processo pedagógico. Mas, quem o disser estará fora da dança de quadrilha que é o debate sobre educação, não formará um trenzinho nem girará no círculo daqueles que se envolvem no assunto.
É preciso ter a coragem de dizer: na educação pública acontece isso, acontece aquilo, e tudo isso gera o inevitável: o fracasso. Que nenhum dos programas oficiais voltados para a melhoria do ensino público vai conseguir vencer. Tal como a escola pública acontece hoje, ela só poderá acabar em falência completa.

domingo, 16 de setembro de 2012

Vergonha: a arte na escola serve para professoras combaterem a arte


Estava lendo há pouco sobre Lúcio Cardoso, na Folha de São Paulo. Nada além de uma resenha, de um texto não-literário, mas que levou por minutos a um mundo de ideias relevantes.

Torna-se indigesto e uma profanação ler sobre um grande artista e depois me preocupar com a rede pública de ensino, tal como eles estão. Ela, a rede; ele, o ensino. Quase como se uma Elis Regina ou um Milton Nascimento fossem animar festinhas no Big Brother.

Lúcio Cardoso me fez lembrar uma conversa que tive durante a semana com uma professora da rede estadual. A amizade dele com Clarice Lispector me trouxe essa lembrança, que ilustra bem a tão propalada cultura do professor público. Nesta semana, estava programado que eles começariam uma greve. Por dinheiro, claro. Deveriam também usar esses dias para ler alguma coisa relevante, do ponto de vista da cultura mesmo.

Essa professora insistia em me dizer que talvez colocasse o nome de Clarice em um bebê que espera. Ela própria, numa atitude típica das nossas professoras, tentou mostrar que tem alguma cultura, dizendo que queria homenagear Clarice Lispector. Para quem conhece professor da rede pública e sabe que leitura não faz parte de seus hábitos nem das suas necessidades, a frase soou ridícula. Quis saber o que a professora já tinha lido da autora. Nada. Insisti: mas por que então? Veio uma resposta típica de professoras que nunca voltaram para casa com um livro e leram, mas que insistem em alardear conhecimentos que não possuem. Ela disse que gostava das poesias de Clarice. Eu disse: ela não fazia poesias. Nunca fez. A professora perguntou o que a autora fazia. Eu respondi: contos, romances, crônicas. A resposta foi típica: um “isso não importa” com o tom de que mostrar a umas colegas na sala dos professores que ela homenageara um nome que todas conhecem apenas dos posts das redes sociais e que, por isto, se fazia uma pessoa antenada. Provavelmente nem sabe o que é poesia, e acredita que as frases de autoajuda que adolescentes postam na internet têm algo a ver com poesia ou com arte. Ou que uma grande escritora os escreveria.

Pobre Clarice. Caiu nas mãos de quem jamais poderia sustentar seu peso: professores do ensino básico. O mundo dos chavões, das ideias preconcebidas, do kitsch, das lembrancinhas feitas nas aulas de arte como sendo tal, nada mais contrário à arte praticada por autores como Clarice, essa literatura complexa, que foge a todos os gostos estabelecidos e aos chavões que o professor adora.

Faz lembrar também o primeiro dia de aula deste ano de 2012. A escola estava cheia de cartolinas com o que um dia foram hai-kais. Copiados na cartolina, sem o respeito aos versos, à estrutura de três versos (com a métrica, se possível), como se aquilo valesse apenas porque tinha o nome da poetisa Helena Kolody, que faz cem anos e a escola deve ter recebido algum panfletinho pedindo para falar dela. Ninguém sabe o que ela fazia, nem sabe ler a sua obra. E são professoras. É fácil imaginarem-se aquelas pedagogas de Faustão e Big Brother, ou a professora das aulas de reforço, que massacra alunos tentando fazer com que aprendam ortografia através de ditado, mesmo toda pessoa com o mínimo de informação sobre a língua portuguesa sabendo que nossa língua não é alfabética, e que o aprendizado das palavras é visual. A professora acredita que estudou em uma escola maravilhosa nos anos 60 ou 70, e despeja a sua ignorância sobre a língua em crianças, que ficam tremendo quando ela dita as palavras em tom de ameaça, e escrevem o que ela falou, não as letras que ela lê no livro. Imagino uma criatura assim passando tardes escolhendo as cores para escrever os hai-kais, certamente sem saber do que se trata, e dando a eles aquela mesma estrutura dos pensamentos, dos ditos famosos que lá na década de 70 a professorada achava o máximo, e fazia o aluno escrever em trabalhos. Decerto fica tentando achar uma mensagem moralista ou de autoajuda na poesia de Kolody, e só encontra lampejos da natureza ou da vida comum. Colocou assim mesmo nas paredes. Para dizer que elas, inclusive as pedagogas que nunca leram nada fora apostilas, sabem quem é a autora e que aquilo é algo para a escola celebrar. Do tipo: ela é daqui, a gente lê por isso, a escola já fazia isso na minha época, e nós estamos aqui formadas. Nas suas casas, nenhuma obra literária. Nunca nem jamais.

 Pobres crianças. Aprendem esses rituais e passam a achar que eles são a própria essência da escola. Se alguém buscasse um volume da própria Kolody e mostrasse ao aluno, ele diria que não é, mas que aqueles cartazes sim são. E a nossa escola forma alunos tão reais como os hai-kais colocados nos cartazes são o gênero japonês ou os posts nas redes sociais são da grande escritora. Luízas, Beatrizes e Ângelas que um dia teimarão que A paixão segundo GH ou A hora da estrela não são de Clarice, mas que os chavões postados no Facebook são. Professores que mostrarão os nomes de filhos como se escolhessem um perfume da moda no catálogo da Avon, o único livro de livre circulação e leitura dentro das salas de professores brasileiras.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

“Paranoia ou mistificação?” A indústria das tarefas forjadas confundida com participação ou interesse dos pais


 
Nem paranoia nem mistificação. Mas uma indústria de fabricação de notas muito bem arquitetada. Indústria que traz, para a escola, índices altos de aprovação, que aumentam o seu IDEB, mesmo que isso não represente habilidades de ensino, nenhuma daquelas contidas no Manual da Prova Brasil. Aliás, desconhecidas pelas pedagogas da escola e pela direção. Indústria que traz, para os pais, a comodidade de poderem fazer, em suas casas, as atividades escolares do filho, ou até mesmo de mandarem fazer, pois ele precisa do computador para teclar com sua galera. Indústria que traz, para o aluno, a certeza de poder passar as aulas trocando recadinhos de conteúdo fisioerótico, enquanto a nota bimestral virá das mãos da mamãezinha (em casa) e das dez lacunas que serão preenchidas em um ritual ostensivo de perfeita-idiotice (na escola).

Uma situação que exemplifica a existência dessa indústria está no encarte que a Revista Veja de 12 de setembro de 2012 traz, e que tem como assunto as tarefas de casa. O conteúdo está no site Educar para Crescer: http://educarparacrescer.abril.com.br/licao-de-casa/jogo-licao/ Tanto o encarte quanto a página eletrônica ilustram situações em que a tarefa de casa pode se tornar uma aliada no crescimento do aluno, ou representar prejuízo não apenas pedagógico como moral. O site traz a figura de uma criança entre a mãe e o pai. Aquela escreve em uma folha, enquanto este pesquisa o conteúdo em um livro. A criança apenas assiste à realização da tarefa pelos pais. A mesma situação é tratada no encarte como regra:

 

Auxilie seu filho em caso de dúvidas, mas sem responder por ele. Estimule-o a pensar e chegar à própria conclusão.
 


 Ou seja, qualquer pessoa que sabe para que serve escola já percebeu que não é a tarefa que precisa ser avaliada, mas o aluno através dela. No entanto, a imensa maioria dos pais, formados em épocas em que a escola ainda era pior que a de hoje, acredita que se avaliam tarefas, e o aluno ganha a nota, não interessando a origem daquilo que o aluno entrega ao professor. (Certa vez, tive que pedir a alguns alunos, que tinham participado dos Jogos Escolares, uma pesquisa extraclasse para repor uma tarefa. A contragosto. O sobrinho de uma professora aposentada, que hoje faz tarefas escolares, provocou um escândalo porque a nota de um colega, que também encomendou trabalho para aquela professora, foi maior que a dele. Eles tinham pago o mesmo valor. Será que a professora caprichara mais na do outro garoto? Na verdade, nem passava pela cabeça do aluno que os trabalhos estavam muito diferentes, embora seguindo o mesmo roteiro. E a ação dele serviu para que eu pudesse desmascarar essas tarefas e pedir ao diretor o direito de repor as atividades de tais alunos de forma presencial, em contraturno, mas nunca através de atividades extraclasse.)

No entanto, tais atividades deixadas para o aluno fazer fora da sala constituem uma indústria. No Colégio Victor do Amaral, em Curitiba, era a sobrinha da vice-diretora que nunca, jamais, escrevia uma linha nas aulas, mas suas atividades vinham forjadas no dia seguinte, até mesmo com a letra de uma adulta. E as atividades pedidas não poderiam, sob nenhuma condição, serem feitas fora das aulas. O que o colégio alegava era que as atividades sabidamente feitas por outras pessoas eram uma tradição colegial, e davam suporte às notas, diante do descaso do aluno com seus resultados. No entanto, ainda dependiam do arbítrio do professor.

Um caso em que a transformação das tarefas em uma indústria da nota ultrapassa o limite da moral e do racional para uma escola é a das tarefas padronizadas da Escola Angelo Trevisan, que desconsideram até mesmo a metodologia que o professor estuda na universidade. Como fazer com que uma atitude típica do jeitinho brasileiro e da malandragem que está a um passo da corrupção ativa pareça apenas a ação de um perfeito-idiota colocado em uma situação de deliberar sobre o que consta no Projeto Político-Pedagógico? Simplesmente dando a essas atividades nomes que parecem conter algo de pedagógico, como “atividade diferenciada”, ou o ridículo caso dos “trabalhos científicos”, que já começam violando o princípio básico da produção científica, que é a de ser original. Nada além de cópias da internet, que o aluno formata a partir de uma estrutura que ele nunca vai saber para que serve. Se nem os autores da proposta sabem, enquanto a deliberaram durante um bingo colegal ou chá de primavera. Paranoia? Não: essas atitudes são cuidadosamente calculadas para que o professor evite ter que atribuir nota ao aluno e a seus conhecimentos e habilidades e a atribua às tarefas, que não possuem atestado de origem, mas que recebem nota pelo aluno imoral e sem habilidades. Mistificação? Pode até ser, quando se diz ao aluno que é científico aquilo que está no lado oposto à ciência, e que é avaliação algo que pedagogos (não os da referida escola, lógico, mas cientistas, como Perrenoud e Afonso) dizem que não serve para avaliar. Essa intenção de dar nomes bonitos para que o aluno acredite estar no Colégio Marista ou no Bom Jesus mistifica conceitos, que aqueles pais que estudaram em épocas em que as escolas brasileiras nem possuíam proposta curricular acham o máximo. Dizem como crianças que chegam em casa depois de verem um teatrinho com um ator vestido de Galinha Pintadinha e acreditam terem conhecido a própria: “Lá na escola eles fazem trabalhos científicos todo bimestre.” E o filho, descendo da condução: “Mãe, eu tirei 3,0 no trabalho científico!”

Nada de incomum, não fosse o fato de que tal indústria (que poderia ser apenas uma mãozinha para que escola, professores e alunos pudessem terminar o bimestre com notas azuis e sem nenhuma preocupação de que isso represente habilidade ou conhecimento) acaba por constituir o método Angelo Trevisan de levantar o IDEB sem que nem a diretora, as pedagogas, ou os alunos saibam redigir uma simples carta oficial. Esse método está no Regimento Escolar. Os pais amam esse método mais que à própria formação moral ou intelectual dos filhos, e devem ter sido péssimos estudantes, porque levam para fazer exames de altas habilidades adolescentes que jamais saberão ler ou redigir um artigo. 

Um exemplo claro da atitude de fazer as atividades para o filho, de modo sistemático, está nos dois textos transcritos logo abaixo. O primeiro é um bilhete enviado pela professora de Arte aos pais. O segundo, a resposta de uma mãe diante da reclamação do professor de que até aquele momento (final de março) seu filho não tinha uma única atividade feita.  
 


 
 
 

A atitude da professora é correta. Mas deixa evidente que é novata na escola. O que ela vê como um percalço no andamento da sua disciplina (os pais fazerem atividades que o aluno deveria fazer na sala de aula, ele, o aluno, para que se avaliasse este e não a tarefa entregue, que a diretora cola na parede e elogia) é um método consagrado na referida escola, desenvolvido por aqueles professores formados em condições não muito formadoras. Mudar essa mentalidade seria possível, com alunos colocados sob uma condição formadora, mas impossível com alunos já estragados por um sistema imoral e inócuo, como as turmas de oitavo e nono ano da referida escola, que vão morrer acreditando que aquilo que Perrenoud escreve não é científico, mas que os seus trabalhos são um show de ciência. Da mesma forma, eles creem na veracidade da Galinha Pintadinha vista no shopping. E pais e mães vão fazer escândalos para que suas filhas possam copiar trabalhos do computador e possam gastar 90% das aulas sentadas na mesma cadeira de um rapazinho qualquer. Que, aliás, vai copiar delas as tarefas.

Aqui, não há nenhuma preocupação com habilidades estéticas. A aula de Arte vira apenas o ritual de pintar folhas de sulfite. E, mesmo assim, é preciso pedir aos pais que não façam para seus filhos. O mesmo acontece com produções de texto, traduções, leituras.

A atitude da mãe é mais assustadora, do ponto de vista da moral e da pedagogia. Ela não demonstra nenhum desconforto ao dizer que copiou as atividades do caderno de outra garota, atividades de produção e de interpretação de textos, que o aluno ignorou, não copiando sequer os enunciados. Ela chega a dizer que acabou de copiar as questões de compreensão de um texto misto (um episódio de série de televisão). Ou seja, fazer a tarefa, sem nenhuma preocupação com os resultados, é uma regra da comunidade escolar da Escola Angelo Trevisan. E a própria mãe reconhece que o filho nem conseguiria copiar da colega de forma satisfatória. Problema grave para um aluno de sexto ano. Novamente, percebe-se que mãe e filho acreditam na Galinha Pintadinha que está no palco. O filho deverá ter nota, porque há umas atividades no caderno. A mãe acredita que o que se avalia é uma tarefa entregue e não o desempenho do aluno, através de um processo acompanhado diariamente, através de conceitos e de fichas. As fichas de autoavaliação, propostas por Jollibert e Calkins, aqui vão para o lixo. O conceito de metacognição, colocado no currículo oficial do país, aqui serve para o pai arrotar as batatas fritas que comeu com o filho, enquanto ambos assistiam às inúmeras Galinhas Pintadinhas que a Escola Angelo Trevisan foi criando para si. Galinhas azuis, irreais, mas nas quais a comunidade escolar crê mais que em toda a produção científica sobre ensino-aprendizagem. Mais que nas propostas curriculares oficiais, feitas por cientistas e técnicos.

O comportamento dessa mãe não é exceção. E praxe escolar, que a diretora elogia e as pedagogas consideram um alívio.  Há casos de produções de texto inteiras que evidenciam que saíram de um único autor, mas que as mães dos alunos que as obtiveram de forma imoral insistem em dizer que não, que são obras individuais. Mães de patricinhas que, elas próprias patrícias de salão, não sabem que existem métodos para se perceber a autoria de várias textos. Será que as patrícias um dia ouvirão dizer que existem formações discursivas? Ridículas, se ouvirem não entenderão, mas continuarão insistindo na própria obra, como as bruxas de Macbeth, com suas barbas e seus gritos.

Da mesma forma, é possível ouvir-se uma longa risada dessa comunidade escolar embriagada de sua própria indústria de produção de notas, diante da instrução que o encarte feito pelo Educar para Crescer preparou.

 

NÃO ATRAVESSE O PROFESSOR!
Não tente ensinar a matéria do seu jeito. Muita coisa mudou desde que você saiu da escola. Evite ensinar fórmulas prontas que não estão previstas no plano pedagógico, pois isso pode confundir seu filho.
 
 
 Imagine-se uma escola onde os pais acreditam que gramática é um conjunto de regras que ensinam a escrever corretamente. Imagine-se esses pais fazendo exatamente o que a regra colocada no encarte diz para não fazer. E dizendo aos seus filhos o que a proposta curricular estadual gasta cinco páginas para esclarecer às escolas que se trata de um equívoco que não pode ser repetido, como se fazia na época em que esses pais frequentavam as medievais escolas curitibanas. O resultado é aquela aluninha, perfeita-idiota do sistema escolar fracassado, acreditar que é uma ótima produtora de textos, quando não consegue nem nunca vai conseguir entender que existem gêneros textuais embreados e outros debreados, e que um texto de opinião impessoal, como artigo, costuma não conter marcas que revelem a condição do autor. Mas ela vai chegar em sua casa para almoçar e dizer que o professor pediu um artigo de opinião mas não quer que ela se coloque no texto, como se isso fosse possível, santo Deus! E as duas vão rir, como riram quando um adulto lhes disse que aquela galinha era um homem. A perfeita-idiota vai dizer: “Como que não existe galinha azul, se até a Maggi tem uma no seu caldo!” E a mãe, orgulhosa da filha, vai ratificar o que ela diz, com um fato de sua juventude: “No meu tempo, tinha até uma propaganda que dizia O caldo nobre da galinha azul.” Elas vão olhar-se e sorrir, como naqueles finais de série americana, a imagem vai congelar e elas serão um exemplo de família feliz. O perfeito-idiota de que falam nossos vizinhos de América está consolidado nessa comunidade escolar. Ela acredita na sua galinha azul pintadinha como certos vizinhos americanos acreditam na índole democrática de Chaves e Fidel.

A construção desse método imoral e inócuo de concessão de notas provém da necessidade de acreditar que o filho não está em um colégio particular, daqueles que cobram resultados, mas que a escola pública onde estuda funciona como se fosse um daqueles. Criar tal ilusão, já que o filho semianalfabeto não acompanharia o ritmo de escola particular conceituada. Lá, teria que procurar uma escola de reforço; aqui, tem suas garatujas coladas em painéis, mesmo que aquilo não corresponda a nenhum conceito científico. Escrevem “parabéns” nas cópias que ele faz da internet. Cópias com dezenas de erros de ortografia e pontuação. Então o professor que chega se espanta e acredita estar participando de uma imensa pegadinha. Seus alunos de nono ano da rede particular escrevem como alunos de nono ano. Os adolescentes da Escola Angelo Trevisan, como ingênuas crianças que pintam o Coelhinho da Páscoa acreditando de fato nele, e vão um dia entrar em uma grande escola sem ao menos dominarem o conceito de gramática. Tal como seus pais, que não perceberam que o ensino deixou de se preocupar com Galinhas e Coelhinhos para se entrar em um mundo de conceitos científicos. No mundo de ingênuas mãezinhas emergentes, é mais fácil que elas rasguem a ABNT do que reconhecerem que o trabalhinho que elas fizeram para o filho não é científico, ou dizerem à professora de Artes que a pintura do Cristo que elas destruíram acreditando saber pintar não passa de um borrão, do qual todo mundo fora da escola vai tirar um imenso sarro.

As atividades feitas por esses pais são como a pintura que a espanhola restaurou. Ridículas demonstrações grosseiras de imperícia. Que os filhos acreditam que sejam El Greco ou Zurbarán. E a escola vai dizer que são, e expor entre as demonstrações cabais da habilidade de seus alunos premiadíssimos.  

A indústria vai passar por interesse dos pais, por engajamento da comunidade. Interesse por notas. Engajamento cujo único interesse é matar a preocupação científica das propostas curriculares. E que obrigaria a comunidade a produzir conhecimento. A madame acredita que o Romero Brito que ela comprou no Supermercado Condor é autêntico, e o filho terá que aceitá-lo. Fazer o quê? Quem nunca comeu melado não sente a menor necessidade de comê-lo. Pessoas sobrevivem com muito pouco. Mas o perfeito-idiota acredita que se banqueteia. A cena final do filme Estômago deveria ter sido gravada naquela escola.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Para todos os educadores que hoje estarão nas ruas marchando e que conspiram contra o conhecimento científico

 
 
 

Era assim.

Este arquivo levou poucos minutos para viajar mais de quarenta anos no tempo, e voltar aos tempos em que o professor passava a Semana da Pátria cantando "Este é um país que vai pra frente", e fazia uma defesa apaixonada do fato de generais terem diplomas e o povo não ter estudo algum. Foi uma pessoa assim que fez as propostas curriculares da área de línguas da escola para a qual esta aberração acima foi feita. Aos sábados, ela pegava uma Kombi e ia para uma faculdade que dava presença a todos que pagavam a mensalidade. Hoje ela conspira contra o conhecimento científico. E faz com que adolescentes chamem essas besteiras de avaliação, mesmo a ciência não as considerando como tal. Mesmo as leis federais e estaduais insistindo para que a escola supere aquela fase obscura. Eles ainda vivem lá. O adolescente que pega o dinheiro da mãe para pagar trabalhos e a professora que, há quarenta anos, comprou o diploma em 36 vezes. Mas foi menos vezes que isso à faculdade. (E os professores universitários que gastam a vida tentando mudar a realidade ficam todos com cara de palhaço, diante da indiferença dos perfeitos-idiotas para com o conhecimento. Faz pensar na professora de Metodologia de Língua Inglesa da UEL, que uma vez caiu em prantos no III CELLI, na UEM, porque graças às pesquisas com um grupo de professores (Uau!), os alunos de uma escola de Cambé melhoraram imensamente os conhecimentos de inglês. Enquanto isso, professores, alunos e pais de outra galáxia fazem dessa aberração um sistema de avaliação. Avaliação de quê? Que São Paulo Freire chore muito no Paraíso, mas não terá muitos professores com que conversar.)

Nestes tempos, o aluno que fez isto aí acima e vive no governo Geisel jamais viajaria cem quilômetros para ir a uma faculdade. O sistema já é feito para que ele possa, na aula em que essa prova cabal de que os professores não são capacitados foi feita, gastar pelo menos vinte minutos no seu Twitter. Por isso, amanhã os perfeitos-idiotas latino-americanos daqui vão poder cantar: "Este é um país que vai pra frente..." E ver que essa bobagem, que não corresponde a nenhuma habilidade linguística, deu três pontos ao aluno. Como nosso sistema escolar funciona! Tal como os educadores de quarenta anos atrás, os de hoje também têm a etiqueta de preço debaixo da fitinha verde-amarela.

Penso naquela professora, a que mandou fazer o certificado na hora do leilão de aulas. Daqui a pouco ela desfilará orgulhosa do país que está ajudando a construir, com os alunos que ensaiou. Essa história do "é desonesto mas faz" começou naqueles tempos da provinha copiada acima. Mas vai ser difícil terminar.
Que tal distribuirmos uns prêmios já que passamos de 3000 acessos?

"Paranoia ou mistificação?": A contribuição do Colégio Nossa Senhora Aparecida para sermos a 5ª capital mais violenta


Madrugada em Curitiba. De manhã, as pessoas que buscarem na internet as últimas notícias irão se deparar com a 5ª capital mais violenta do país, segundo reportagem da revista Veja. Estupros, assaltos, crimes motivados por drogas, pessoas degoladas ou queimadas vivas. Tudo aquilo que vem com um endereço definido: aquelas regiões para onde vão as pessoas que um dia roubarão sua casa ou viciarão seu filho em alguma substância. Mas que, por enquanto, estão rindo à toa com o modelo de educação curitibana.

Os endereços estão nas notícias. E tantas vezes colegas professores me diziam que não adiantava morar em uma região mais desenvolvida da cidade, que era de lá daqueles colégios que os bandidos vinham. A primeira vez em que ouvi falar em Vila São Pedro foi assim: uma pedagoga do bairro do Boqueirão me disse que as escolas daquele lugar eram referência em problemas de violência. Na verdade, eu já sabia que no bairro do Xaxim existiam os criadouros de gente assim. Uma diretora de uma grande escola em Araucária já havia me falado que, quando estudante, prestou estágio no Colégio Nossa Senhora Aparecida e que, sendo ela católica, creditava o fato de lá não ocorrerem tragédias diárias à intervenção da santa. Esta já deve ter jogado a toalha. Em dezembro de 2010, a diretora, uma senhora que se refere a essas ações como se risse das violências do rato Jerry, me contou que seu carro já fora incendiado por alunos e que o fato saíra até na televisão. Naquele dia, eu telefonei para o meu núcleo e disse que não trabalharia em tal colégio, mesmo que eu tivesse que abandonar a profissão. Acabei parando lá no meio do ano, como situação provisória. Um desses lugares com um forte cheiro a infiltração e a tabaco molhado, bastava olhar atrás das janelas e o susto aumentava. E como eu ia para lá depois de trabalhar em uma escola onde os alunos tinham aula de valores morais, diariamente, antes de irem para a sala, era estranho ver que casos assustadores eram relatados por todo mundo como se o Jerry houvesse incendiado o Tom. Duas semanas depois de conhecer o oitavo círculo do Inferno, a professora de ciências me chamou ainda no corredor e me disse que um aluno acabara de matar um outro, com uma paulada, por sobre a cabeça dela. E ela dizia isto com aquele tom de “um cano estourou e molhou uma menina”, coisa pouca, rotina de escola, é só passar um pano. Os alunos também contaram a história na sala. Estes, com admiração. Para eles, era mais uma fase de algum game, que eles determinavam lá no íntimo que um dia iriam superar. Devem estar esperando por isso, mais do que sonham com casamento ou formatura.

O fato é que dois dos alunos envolvidos na história de assassinato passaram a me fazer ameaças, a impedirem qualquer possibilidade de concluir uma aula. Não eram casos isolados. Lembro a tarde em que uma senhora, a pedagoga mais velha, contou que a filha estava trabalhando no exterior, no projeto que agora localizou o bóson de Higgs, e que na época fora notícia devido a uma experiência com a velocidade da luz. A turma, uma sétima com cara de ensino médio e conhecimento de pré-escola (a figura colocada no final do parágrafo mostra que não é exagero) começou a debochar de tudo que ela falava, até do nome da moça. Os olhos da senhora se encheram de lágrimas, as risadas eram mais fortes que seu orgulho, e ela saiu da sala. No entanto, alunos como esses, que ameaçam e insinuam suas ligações com a bandidagem, são modelos de conduta para muitos. Tanto que a própria diretora e o responsável pelo setor Bairro Novo sentiram as dores do garoto que ameaçou destruir meu carro, quando por isto pedi ajuda na Delegacia do Adolescente. As garantias que eu recebi de segurança lá na delegacia foram refutadas pelos dois acima, além de ambos serem adestrados para verem na conduta criminosa dos alunos apenas a ação de ratos de desenho animado. "Aqui é assim, não se muda a sociedade." Está em ata: a diretora diz que nas casas eles são assim e que só vão à escola para comer e que, cognitivamente, eles não têm potencial para aprender. Perguntei se havia um diagnóstico. Mas é essa crença na impossibilidade de o aluno de classe baixa aprender que justifica, nos conselhos de classe, a aprovação, como se fosse uma explicação técnica. Tanto que, quando deveria ter havido a reunião pedagógica do bimestre, a diretora chamou um radialista e os professores passaram a manhã dançando, mesmo ela tendo anunciado dois dias antes que pelo menos 70% dos alunos passariam apenas por conselho de classe. Nenhuma medida. Lá estavam os cestos para lixo reciclável que o vice-governador levara dois dias antes; um deles já estava quebrado. Então, as palavras eram: “Para que a gente ficar falando sobre alunos, em uma manhã de sábado, se não adianta mesmo? Vamos festejar!” (O exemplo abaixo é de um daqueles alunos em idade de prestar vestibular, mas que se mantém em uma sala de sétima série recusando qualquer ação que possa construir nele alguma habilidade positiva. As que escola vem construindo ele abraça com todos os reais.)
 
 
Mais um:
De uma garota, após umas quatro aulas dedicadas a mostrar o gênero artigo de opinião, a fazer modelos com a sala, a explicar as etapas (planejamento, versão preliminar, versão refeita, edição...) de produção e suas condições, tudo para que enfim se ouça: "A gente aqui só sabe falar sobre sexo e drogas." O interessante é que o conteúdo já aparecia como trabalhado (em uma aula, sem nenhuma especificação de gênero. A velha história da professora que entende ainda menos que o aluno).
 
Quem se lembra da inscrição que Dante cita como afixado no umbral do portão do Inferno sabe o que deve estar escrito sob a tinta mofada daquele colégio: Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate (“Deixai toda esperança, vós que entrais”). Mas talvez o verso de Terêncio se enquadre melhor naquele cenário: Homo sum: humani nihil a me alienum puto (“Homem sou: nada do que é humano reputo alheio a mim”). E sabe que a primeira é cuidadosamente mantida pela comunidade escolar. Como um Cérbero de cabeças anencéfalas, ela crê que um ensino de qualidade demanda trabalho, e deve ser evitado, mesmo que para isso se queimem carros de diretores. Afinal, aqueles alunos de sexta série se recusavam a escrever a própria biografia para não ter que falar os nomes dos pais. Alguns alegavam não saber. O fato de alguém falar um nome em voz alta era motivo para agressões. Dessa forma, deixa-se a atividade de escrita e se parte para uma compreensão de texto, “História de uma gata”, que Diana Barros recomenda como forma de se falar sobre multissignificação. A biografia fictícia só dois ou três alunos em cada sexta copiaram. Apenas quatro alunos com cadernos e nenhuma providência tomada. Não têm cadernos, que comam brioches, é a ordem da direção. Avisava-se aos alunos que eles não entrariam sem uniforme, mesmo uma lei federal proibindo essa ação. Mesmo que o uniforme servisse apenas para se manchar com sangue de colegas ou professores. Mas pedirem-se cadernos e atividades, ah, conta outra, né!  

Evidentemente, só aqueles quatro alunos teriam nota. Porque atividade oral só a aluna que viera de Minas fazia. E leitura, ela e mais uns três. Estão dentro das estatísticas da diretora acerca dos 30% que passam com nota. Era comum entrar nas salas e encontrar uma garota (que os professores diziam ter piolhos) com suas colegas dançando sobre a carteira, e a descabelada chegava a abaixar a tão cobrada calça do uniforme para provocar um garotinho que a ignorava. Provar à garota de fora que elas, em vez de se dedicarem à escola, já tinham uma vida sexual ativa, era a única forma de se acharem superior à outra. Mas, sobretudo, para impedir que as aulas transcorressem sem a cobrança de intervenções. O recado era que nenhum pai se importava, fora o da garota de Minas. Quando se avisavam os pais, eram comuns respostas como esta aqui:
 
 
 

Que lindo exemplo de fêmea protegendo a cria! As atividades do aluno (todas) se resumiam a isto que se vê abaixo:




 

Mas a mãe quer insinuar que o filho nem leva cadernos à sala porque o professor faz a chamada individualmente, à carteira, porque lá eles mentem os nomes. O medo é apenas relacionado à falta, pois ninguém se preocupa com aprendizagem. Repete o chavão do direito, que deve ter sido o ápice da educação de quem escreve "ateção" e "aulto", o que, para ela, asseguraria a seu filho o direito de passar dois meses sem levar material à aula e obter nota. Foi preciso abandonar os cadernos e levar papel sulfite para a sala. Talvez o enxofre das folhas deixasse os alunos mais à vontade. Mas o fato é que elas voltavam vazias. Como nunca adiantou avisar pedagogas, o fato era registrado por uma delas em ata e eu avisava os pais. “Seu filho não está fazendo as atividades. Ele vai terminar o bimestre sem nota se continuar assim. Por que não traz material para a aula?”

A resposta da mãe copiada acima é um exemplo claro do modelo de educação vigente no Colégio Nossa Senhora Aparecida. Quando se diz que o filho não entendeu, o que se está dizendo, em verdade, é: “eu não sei fazer para ele; peça algo que eu mesma possa fazer e ele entregar como trabalho.” Ou o truque de dizer que a matéria não foi explicada, mesmo quando se gasta todo o arsenal possível para isto: xerox, data-show, esquemas na lousa. Fica evidente o acordo tácito que leva uma diretora a dizer que seu aluno não é capaz de desenvolver habilidades, nem querendo. Ele pode decorar ou copiar; não muito, e que não passe de um assunto. Na verdade, o modelo de tarefa é algo assim: a professora de português que nunca passou em concurso, mas é funcionária do estado há décadas, conta a uma mãe, na entrega do boletim, que o filho foi mal na prova sobre mau (com u) e mal (com l). Parece inacreditável: em segundos tudo aquilo que os governos fizeram para convencer os professores de que a década de 70 já acabou cai por terra. É possível ouvir a Universidade do Professor aparecendo do quadro do Fantástico sobre fantasmas, o site Dia-a-a-dia Educação invadido por hackers, os livros didáticos preparados pela SEED boiando no Rio Belém, a TV Paulo Freire tomada por locutores de supermercado, todos os NRE-Itinerante trocados por shows daquele traficante que aparece no YouTube ensinando o filho de dois anos a usar maconha. Nós voltamos ao tempo em que uma professora recebia dinheiro público para dar provas sobre regras decoradas de gramática, que apenas o exemplo já dá conta de ensinar. Certamente essas provas são com exercícios, tal como a Linguística Aplicada diz para não se fazer porque não funciona, pois lá os alunos se recusavam a copiar até a data da lousa se o professor não afixasse um carimbo em qualquer parte creditando meio-ponto pela ação. Claro, o professor que está há mais de um concurso se mantendo como funcionário do estado, sem passar em nenhum, é exatamente como o aluno que só tira o lápis do estojo se a ação valer nota. E só consegue nota em concurso se o assunto não passar de uma regra. E é para ele que diretores e chefes de setor trabalham. Lembro uma professora que, há poucos anos, era a segunda classificada de uma lista de professores temporários. Eu estava lá porque levei uma colega. Então, a conselho do responsável por distribuir as aulas, ela procurou uma pessoa que ganha a vida fazendo trabalhos escolares e dali a pouco voltou com um diploma de pós-graduação, que entregou ao rapaz na frente de quem estava lá. Fui eu que dei o telefone do núcleo para que a primeira colocada pudesse reclamar. Resposta oficial: “Você acha que a gente vai ficar contra uma pessoa que um funcionário nosso protegeu? Parente de uma vereadora!” (Vou ver se gravo aquela pessoa contando o fato e depois coloco aqui.)

O resultado está nas escolas. Mas é melhor usar uma outra postagem para mostrar como a professora da provinha dá seu conteúdo. Que tal olharmos o livro de chamada dela, com conteúdos e notas? E o resultado de seus alunos, lógico. (Não sei se é possível colocar aqui figuras tão grandes.) Por que o analfabetismo é visto como sucesso e propugnado pela diretora como resultado esperado?
Não se pode esquecer da inscrição de Dante. Ela explica.
Por isso, é difícil portar a esperança quando o sistema a quer do lado de fora. Ou quando pessoas que fizeram da escola alguma esteira sobre o qual o aluno recebe seu carimbo insistem em manter a situação sob fracasso. Como seria dar aulas para a professora que comprou certificado e não passa em concurso, se ela tiver que cumprir os conteúdos, a metodologia e a avaliação tal como estão nas diretrizes curriculares? O perfeito-idiota é uma instituição escolar. Mexer com ele representa correr risco de aparecer nas notícias da manhã. Seria tornar o funcionário do núcleo de educação que a estas horas deve estar bebendo seu café para depois ir fumar na calçada um pouco preocupado com a qualidade do ensino. Mas, ele cuida pessolamente que ninguém mexa na inscrição da porta do Inferno. É dele, ele viu primeiro...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

"Paranoia ou mistificação?" A Escola Angelo Trevisan e os perfeitos-idiotas do ensino público (1)


Um exemplo notório de perfeito-idiota do ensino público: a aluna que fez um escândalo porque seu texto foi usado numa aula de refacção de textos. Um exemplo mais gritante ainda: os responsáveis pela aluna que, mesmo já tendo passado pelo ensino básico, nunca fizeram uma produção de texto dentro do que a metodologia considera como tal; um exemplo que beira o escandaloso: a despreparada pedagoga que nunca ouviu falar de metodologia de ensino ou de sequência didática.

E, no entanto, a lista de perfeitos-idiotas se estende até as cadeiras mais elevadas de núcleo ou de secretaria de educação. Ninguém sabe que a proposta curricular elaborada no estado assume as sequências didáticas como sendo a metodologia mais adequada ao ensino de línguas. Todos são como a garotinha cujo pai paga para um profissional fazer seu trabalhinho, e ela fica toda orgulhosa na hora de tomar chazinho com a diretora, e a mãe chega a falar em habilidades elevadas.

Afinal, as Diretrizes Curriculares Estaduais são claras:

 

Cabe ao professor planejar e desenvolver atividades que possibilitem aos

alunos a reflexão sobre o seu próprio texto, tais como atividades de revisão, de

reestruturação ou refacção, de análise coletiva de um texto selecionado e sobre outros

textos, de diversos gêneros que circulam no contexto escolar e extraescolar. (P. 80)

 

Por meio desse processo, que vivencia a prática de planejar, escrever, revisar

e reescrever seus textos, o aluno perceberá que a reformulação da escrita não

é motivo para constrangimento. O ato de revisar e reformular é antes de mais

nada um processo que permite ao locutor refletir sobre seus pontos de vista, sua

criatividade, seu imaginário. (P. 70)

 

Para dar oportunidade de socializar a experiência da produção textual, o

professor pode utilizar-se de diversas estratégias, como: afixar os textos dos alunos no

mural da escola, promovendo um rodízio dos mesmos; reunir os diversos textos em uma

coletânea ou publicá-los no jornal da escola; enviar cartas do leitor (no caso dos alunos)

para determinado jornal; encaminhar carta de solicitação dos alunos para a câmara de

vereadores da cidade; produção de panfletos a serem distribuídos na comunidade; entre

outros. Dessa forma, além de enfatizar o caráter interlocutivo da linguagem, possibilitando

aos estudantes constituírem-se sujeitos do fazer linguístico, essa prática orientará não

apenas a produção de textos significativos, como incentivará a prática da leitura. (P. 77)

 

No entanto, o perfeito-idiota não admite o que as diretrizes curriculares apontam. Para esses pobres-diabos da educação, o que está lá é apenas sugestão. Eles não alcançam a verdade científica que as diretrizes resumem, toda a pesquisa que existe por detrás de um documento norteador bem fundamentado. É o caso dos chefes de setor de núcleo, que desconhecem até mesmo o que as leis federais determinam sobre uniforme ou nota. Em dezembro passado, lembro-me de um deles chamando os professores com contratos temporários de imbecis, a eles que já esperavam lá por cerca de quatro horas para que os tais funcionários começassem a distribuir as aulas. Saboreando o fato de não terem conseguido organizar seu trabalho para a hora marcada no gosto de deixar dezenas de professores sentados no pátio de uma escola, de pegar um megafone e chamá-los de “ignorantes, não entendem nem o edital, nem parecem professores”.

 E, no entanto, o perfeito-idiota vai às escolas e considera absurdo que um professor torne público o texto de uma aluna. Considera o fato oposto ao que as diretrizes apregoam nos trechos acima, ou seja, que todo texto produzido por aluno deve circular pela escola e fora dela. Mas, principalmente, que a refacção dos textos é o momento em que estes são vistos e discutidos pela turma. Em alguns países, esse aluno de quem se discute o texto inclusive se senta diante da turma. Mas o perfeito-idiota ainda acredita nos chavões que ouviu de uma pedagoga quando ainda atuava em sala de aula.

No entanto, a aluna perfeita-idiota acha a ação de fazer os textos servirem como referência para análise linguística e refacção, aprendida nas universidades, como um constrangimento. Para não se usar aqui o nome legítimo de uma aluna que seria motivo de riso dentro de toda sala de curso de letras sério, chama-se a mesma de Gabriela, para se celebrar o centenário de Jorge Amado. Afinal, uma Tereza Batista, por exemplo, tem objetivos por que lutar; Gabriela, não. É como uma aluna do Colégio Olavo Bilac, de Faxinal, que deveria escrever sobre as expectativas em relação ao governo Dilma e foi taxativa na hora de se recusar: “A gente aqui desta turma só sabe falar sobre sexo.” E eu, que acabava de conhecer a turma, uma oitava série, achei que fosse apenas deboche... Os alunos da oitava série da Escola Estadual Angelo Trevisan, de Curitiba, poderiam escrever sobre outro assunto. Mas o resultado seria como o da colega Gabriela acima: sem gênero textual definido, sem superestrutura, sem ponto de vista, sem argumento, desconhecendo princípios de concordância, repetindo à exaustão uma ideia já formulada.
 
 

Imagine-se a cena dantesca de vários perfeitos-idiotas indo procurar uma pedagoga que, durante anos de profissão, leu apenas receitas e revistas de fofoca, para dizer que a correção do texto de um aluno, como modelo, tal como indicado nas propostas curriculares, é algo nunca antes visto nas suas vastíssimas referências sobre o ensino de escrita. A aluna foi alvo de constrangimento. E a pedagoga busca os chavões de quando era uma adolescente lá perto de Maringá e cursava o magistério, pois ao curso de pedagogia foi possível ir apenas nas noites de sexta e passar grande parte do tempo em lanchonetes. Ela acha, na profundidade de seu conhecimento científico, que a aluna não podia ter seu texto conhecido pelos demais, nem ela saber o que os outros fizeram. Nessa hora, acontece como a grande treva que cobriu a terra enquanto Cristo jazia na cruz: todo o conhecimento científico organizado, todo o trabalho de pesquisa feito nos grandes centros de ensino, tudo isso foge como um cão sarnento diante da pedagoga, portadora da tocha da Grande Ignorância que mata o progresso do ensino no país. Ela ganha os seus três mil reais para matar o conhecimento científico na escola e faz por merecê-los. Quem dirá que não?

A escola chegou à segunda década do século sem dispor de mecanismos para tornar conhecidos os textos feitos por seus alunos. Algo que já está nas propostas curriculares há cerca de trinta anos. O trecho de O texto na sala de aula, de Geraldy, de 1985, é um exemplo:

 


 

As práticas efetivas significam: ações concretas de comunicação. Mas o aluno perfeito-idiota vai continuar achando que escreve para o professor, porque mamãe fazia assim, e também uma diretora que não consegue redigir um documento oficial não vê por que mudar. O que fazer quando ana-ana-analfabetas possuem a autoridade do cargo, mas não a autoridade do conhecimento? Não conhecem sequer os “procedimentos pedagógicos” de uma pedagogia baseada na ciência e não na perfeita-idiotice. O perfeito-idiota está no poder, como ironiza Vargas Llosa.

O ridículo de ter esse tipo de aluno conspirando contra o conhecimento científico só diminui seu caráter surreal quando se pensa que os adultos já escolarizados estão no mesmo nível de conhecimento. Mas eles já chegaram aonde queriam. Os pequenos devem seguir o mesmo caminho.

 

O perfeito-idiota do ensino público: definição


Quando qualquer pessoa instruída sai do século XXI e se depara com a educação pública de Curitiba, o que logo aparece, de um modo gritante e autoritário, é a figura do perfeito-idiota. Claro, ele dá nome a um dos mais interessantes livros sobre o modo como o imbecil latino-americano pensa. A obra O perfeito-idiota latino-americano resume a figura daquele cara que conseguiu um cargo no serviço público graças a clientelismo político, ou a favores de outro jaez, e que confunde a autoridade dada pela figura do protetor com autoridade legal, científica ou moral, as quais normalmente esse idiota, mesmo perfeito, não tem.

E eles se reproduzem com facilidade. Ocupam desde os cargos de confiança aos de assistente administrativo. Tantos anos vendo as pessoas que leiloam cargos pedindo a conhecidos que consigam certificados falsos para poderem tomar a vez de quem de direito ocupa as primeiras posições nos concursos, que é indigesto ver como esse perfeito-imbecil adora exercer a autoridade. Como mérito! Ele não conhece as leis, os regimentos que regulam a sua profissão; abomina o conhecimento científico, a produção bibliográfica (até porque achava uma chateação os professores pedirem essas coisas na faculdade e, se conseguiu se formar sem ler um capítulo de livro, não será depois de empregado que irá fazê-lo); confunde o conceito filosófico de ética, que busca ser universal, com as praxes do serviço público.

O perfeito-idiota do ensino curitibano se senta tanto nas cadeiras almofadadas das repartições quanto nos bancos da época do governo Cannet que preenchem as salas de aula. Na sala de professores, ele quer apenas tortas e biscoitos, mas que ninguém fale de questões prementes da educação. Sentados numa sala de direção, tornam-se tão bons em contas que reformam suas casas, embora ganhem o mesmo que os demais professores. O aluno perfeito-idiota acredita que a verdade está nas crenças de seu grupo; que tudo que seus pais praticam é ético, como pagar por trabalhos escolares ou conseguir que o filho-aluno termine a série sem ler uma das obras pedidas; acredita nos defeitos históricos do sistema escolar como sendo da sua essência, como a decoreba e a cola; acredita que a nota vale mais que tudo que se fez no bimestre escolar. O pai perfeito-idiota vai dedicar sua vida a legimitar o que o filho pensa e pratica; para ele a escola é como limpar a dispensa aos sábados ou podar a grama. Diretores, pedagogos e professores perfeitos-idiotas vão se comportar como os gnomos na floresta, deixando que aluno e pai façam como quiserem, desde que os defeitos históricos do sistema escolar não lhes inviabilizem um salário mensal.
 
Esses caras merecem inúmeras postagens. Tantas que fariam os autores do livro que lhes dá nome rever seus conceitos. O perfeito-idiota não se refere a quem acredita em um discurso de esquerda pretensamente ultrapassado, mas àquela figura que, nos romances de Jorge Amado, guarda a porta para o patrão dormir com a amante, depois atrela o cavalo para a patroa ir à igreja. Tanto a amante quanto a igreja são peculiares a um sistema que garante o seu salário ou sua nota. Para ele, basta.

sábado, 25 de agosto de 2012

Uma única Torloni; milhares de patrícias




Há poucas horas, o site UOL publicou trechos de uma entrevista com a atriz Christiane Torloni, na qual ela faz comentários sobre a realidade do país, para terminar fazendo uma crítica à educação.

O trecho abaixo, copiado do site, contém um pouco da bravata da atriz:

Ela ainda falou sobre o governo da atual presidente Dilma Rousseff.“Novela é entretenimento, não é o programa do mensalão, isso é realidade, os caras têm que ser condenados. Essa é a prova de fogo do governo da Dilma. Dentro do mandato dela está tendo o maior julgamento que a história da República já viu. Isso não vai ficar para o presente, vai ficar para o futuro. Isso é história e nós somos responsáveis por isso. Se nós permitirmos que isso vire pizza, nós vamos merecer tudo que virá pela frente. O [fato do Fernando]Collor estar de volta ao poder, a gente merece, a gente deixou que isso acontecesse”, completou a atriz, referindo-se ao ex-presidente, que antes de sofrer um impeachment, renunciou ao cargo em 1992 e atualmente é senador.

Christiane também fez críticas à educação no país: “Não podemos esquecer que os políticos são funcionários públicos. O brasileiro é um povo que acha que só tem deveres, mas os direitos ele não sabe, porque não aprende na escola. Foi tirado do currículo da educação brasileira matérias que ensinavam para as crianças. Eu sei porque fui uma criança que estudei Organização Social e Política Brasileira, Moral e Cívica, era chato para chuchu, a gente pode até mudar o nome, mas tem que aprender. Se você conversa hoje com uma pessoa de 25, 30 anos, ela não tem a menor ideia do poder que ela tem, dos direitos de cidadania. Por que a Rio + 20 foi esse fiasco? Por nossa culpa. Cidadania não pode ser sazonal, ela tem que ser cotidiana”.


Torloni foi uma personalidade de destaque durante o processo de redemocratização do país. Chamada de “musa das diretas-já”, também estava no palanque de Tancredo Neves e na eleição deste. As pessoas que comentaram a fala da atriz no site não sabem disso. Essa ênfase toda era característica de quem saía às ruas para reclamar dos desmandos no país. Ela sabe que cobrar direitos é algo a ser ensinado na escola. Fazer cumprirem-se as leis.

No entanto, Torloni foi ingênua ao fazer o comentário acima. Vejo nessas palavras a voz das mães das minhas alunas patricinhas, elas mesmas patrícias beneficiárias de um sistema educacional corrupto e fracassado. Novamente, a velha história de que a escola das décadas de ditadura ensinavam valores, entre eles o patriotismo. Palavra que tem a mesma raiz de patrícia. Patrícias patriotas é pleonasmo vicioso e infame. Todo mundo sabe que as disciplinas de Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Educação Moral e Cívica (EMC) eram instrumentos de doutrinação política a serviço do regime. E foram tão eficazes que, ainda hoje, é possível encontrar nas escolas as patrícias colando bandeirinhas para o dia 7 de setembro, mas nunca comparando o regimento escolar com normas federais e estaduais. Essas Terezas Cristinas Patrícias que empurram o ensino brasileiro escada abaixo ainda acreditam que o patriotismo é um valor. Não é o que acham cabeças pensantes:

“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.”(Samuel Johnson)

“O patriotismo é o primeiro refúgio dos canalhas.”(Millor Fernandes)


“O patriotismo é a virtude dos depravados.” (Oscar Wilde)

“Aquele que ama sua pátria não pode amar nada.” (Lord Byron)

“Nunca existirá um mundo tranquilo enquanto não se extirpar o patriotismo da raça humana.” (George Bernard Shaw)


“Todo imbecil execrável, que não tem no mundo nada de que se possa orgulhar, se refugia neste último recurso, de vangloriar-se da nação a que pertence por causalidade.” (Arthur Schopenhauer)

“Heroísmo no comando, violência sem sentido e toda detestável idiotice que é chamada de
patriotismo - eu odeio tudo isso de coração.” (Albert Einstein)


Evidentemente, as frases acima jamais interessariam às patrícias mães de alunos, porque a pedagoga
da escola de seu filho passa horas imprimindo desde o hino nacional ao do morador da rua onde fica a tal escola, que devem ser decorados e cantados. Quem são Einstein ou Schopenhauer diante das senhoras que cantam “Eu quero tchu”enquanto recortam bandeirinhas? E de uma diretora fraca e desinformada, que precisa agradar a elas para poder permanecer fora da sala de aula?

Torloni é ingênua. Acredita que patriotas não fariam o mensalão, ou que protestariam contra ele, quando a História mostra que o patriotismo é que leva tiranos e corruptos a suspenderem leis e direitos em nome do amor que eles têm pela pátria. A suspensão dos direitos, a instauração da tortura, tudo isso é típico do patriota que acredita que censurar a imprensa ou torturar dez pessoas para o benefício de milhões é algo puramente legítimo. Foi um pensamento assim que gerou o mensalão: aprovar leis que beneficiem milhões, em troca de um ligeiro desconhecimento das leis em vigor. A diretora que eu levei à justiça ontem pensa assim. Ela e os que votam nela. Os mensaleiros que processaram jornalistas também pensam assim.

Patriotismo era ideologia da época em que países como Alemanha e Itália se unificavam, e que acabou por gerar duas guerras mundiais. Passou. É lixo superado pela dialética da História. Mas na escola é tão presente quanto o giz e o quadro-negro. Hoje, a pessoa que amava a pátria e morria por ela deveria saber que interessa, não importa em que país, estado ou cidade viva, lutar para que as leis sejam cumpridas pelas autoridades e pelo povo. Isto é racionalidade, não é a cegueira das paixões. É o princípio do estado de direito.

Um exemplo nítido dessa distorção está na minha professora de OSPB, lá na década de 80. A matéria era dada às quintas-feiras, na última aula. O que não era acaso, mas permitia à professora, que já detinha um cargo na prefeitura, aparecer às aulas apenas quando lhe conviesse. Tenho aqui o caderno daquela época: cinco folhas escritas, ao longo de um ano letivo. Nenhum livro, nenhuma apostila, nada além de cinco folhas. E o interesse pelo bem da pátria transparece claramente na atitude de se criar uma disciplina apenas para dar umas aulinhas para aquela amiga da diretora, que nem tem tempo, pois já trabalha 40 horas na prefeitura, mas não pode perder o vínculo com o estado.

Essa cegueira das Torlonis e das patrícias em relação ao ensino de antes e ao de agora faz com que, a cada dia, uma delas exija da escola de seus filhos o uniforme, os hinos, o cabelo bem cortado, mas nunca a observação das leis que podem garantir uma escola honesta e atualizada. Uma Torloni até exigiria, pelo seu passado nas ruas; uma patrícia, nunca. Leis não caem no vestibular. Mas, sobretudo, esta exigiria que não se fale em Einstein, em Schopenhauer, em Shaw, em Wilde, em gente que pensa. O pensamento é o maior inimigo do ensino praticado no país.




 

Dados para avaliação do ensino médio

Nos últimos dias, têm aparecido na imprensa e em sites sobre educação opiniões sobre a mudança no sistema de cálculo do IDEB do ensino médio.
A mudança seria a troca dos resultados do SAEB, usados atualmente, pelos dados do ENEM. A crítica que se faz é que tal mudança seria uma estratégia do ministro para elevar os índices de ensino médio apenas através da alterção da fonte de dados, mas sem que se melhore o desempenho das escolas.
Na verdade, a elevação desses índices é um dado quase acidental. Pode até ser usada politicamente. Mas a mudança é necessária. Os dados do SAEB resultam de amostragens, que levam em conta os resultados de um número reduzido de alunos. É parte do método, sendo comum que escolas escolham a dedo os alunos para essa amostragem. O que resulta, sem dúvida, em um falseamento dos resultados efetivos das escolas. A troca pelos dados do ENEM pode indicar que mais alunos entrem nesses resultados.
Evidentemente, as escolas ainda escolhem alunos para fazerem o ENEM. Há casos de alunos que não se interessam. O que poderia repetir a limitação do SAEB. É um problema a ser resolvido, tornando-se obrigatório o exame. Mas não se pode criticar o ministro pela mudança.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Regimentos escolares ilegais: será que é só por ignorância?


Em 2004, a então diretora do Colégio Estadual Padre Gualter Farias Negrão, em Cruzmaltina, Paraná, em uma atitude evidente de favorecimento, permitiu que uma aluna cursasse o ensino médio sem precisar sair de casa. Os professores é que deveriam providenciar todos os recursos para que a garota pudesse estudar diante da sua televisão e comendo os seus bolos de milho.

Seria ingenuidade acreditar que, em uma cidade grande, como Curitiba, diretores favorecessem alunos em troca de pamonhas ou frangos caipiras. A atitude de alunos que falam em pagar para passar de ano, que bastam alguns reais e eles conseguem nota, é sintomática de que existem outros tipos de favores. No interior, lembro que um aluno fraco alardeava que havia passado graças a um presente dado a uma professora. Em uma cidade grande, esses presentes certamente existem, para que alunos tenham tão entranhada em si uma cultura de favorecimento.

As diretrizes curriculares do estado condenam o sistema de “toma lá dá cá” que ainda prevalece em sistemas de avaliação. Mas ele se refere, evidentemente, às avaliações que não exigem um processo de acompanhamento do aluno, aquelas que o paizinho pode fazer para o filho ou pagar para que profissionais façam. Até mesmo, a simples atividade de decorar respostas ou colar trechos da internet. Conheço professores que montam blogs de trabalhos escolares prontos, já prevendo que as escolas jamais fariam algo diferente.

O interesse com que diretores se apegam a modelos de avaliação condenados tantos pelas leis federais, como as LDBEN, como pelas estaduais, como a deliberação 007/99, assim como condenados pela produção científica, é um sintoma claro de que há mais coisas sob esse apego do que apenas ignorância.

Acreditar que uma diretora que comete dezesseis erros de escrita em um bilhete de seis linhas para pais de alunos compreenda essas leis ou essa literatura científica é como esperar que o aluno de ensino médio compreenda a Crítica da razão pura. Afinal, não é idealismo o que tira esses docentes da sala de aula e os coloca no comando de uma escola. Fora a quantidade de pacotes de macarrão que ainda restam na cantina, nada parece interessar a esses profissionais. A não ser, é claro, o número de reprovados. Já que evasão, para eles, é problema do governo e não da escola.

A preocupação com esse número de reprovados é um dos pilares dos mensalões pedagógicos, que levam as escolas a adotarem modelos abjetos de avaliação.

Comparem-se:

 

O trecho abaixo é das Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, (capítulo II, artigo 24, inciso V, item a):

V – a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:

a)      avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais(...).

 

O trecho seguinte é da Deliberação 007/99:

Art. 12 - O estabelecimento de ensino deverá proporcionar recuperação de estudos, preferencialmente concomitante ao período letivo, assegurando as condições pedagógicas definidas no Artigo 1.º desta Deliberação.

Parágrafo Único - Entende-se por período letivo a carga mínima anual de 800 horas distribuídas por um mínimo de 200 dias de efetivo trabalho escolar, excluído o tempo reservado às provas finais.

 

O trecho seguinte foi extraído do Regimento Interno de uma escola considerada modelo, de Curitiba (Modelo de quê?):

Parágrafo Único -  Seguem - se  os seguintes critérios:

    I. a avaliação deverá constar de:

a) provas escritas, no valor máximo de 6,0 (seis vírgula zero) pontos;

b) atividades avaliativas, no valor máximo de 4,0 (quatro vírgula zero) pontos.

 

Da mesma forma, o trecho seguinte:

Art. 98 A recuperação de estudos é direito dos alunos, independentemente do nível de apropriação dos conhecimentos básicos.

            Art. 99 A recuperação de estudos dar-se-á de forma permanente e concomitante ao processo ensino e aprendizagem.

 

O trecho seguinte foi extraído de um planejamento docente:

INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO

 

  Etapa:

- Duas avaliações formais ( valor total: 6,0)

 

  Etapa:

- Atividades diversificadas;

- Produções de textos;

- Leitura de obra literária indicada.

( valor total: 4,0)

 

  Etapa:

- Recuperação das avaliações formais ( valor: 6,0)

 

   A recuperação é paralela ao planejado, permitindo assim a real recuperação do aluno.

 

Qualquer aluno de ensino fundamental que possua as habilidades de leitura adequadas à idade de fazer uma Prova Brasil compreende, em uma leitura superficial, que os documentos da escola estão em discrepância em relação às leis e à deliberação acima. As LDBEN deixam evidente que o valor das atividades processuais deve ter “preponderância” sobre o de “eventuais” provas finais. No regimento da escolinha amarelinha, que cabe na mão do aluninho, o valor dessas provas, que não são processuais, chega a 6,0. Ou seja, a escola inverteu a lei federal. Pode fazer isso? Quem conhece a Constituição Federal sabe que não.

Ainda em relação a isso, as leis e diretrizes deixam evidente que a prática de provas finais deve ser abandonada:

Em uma concepção tradicional, a avaliação da aprendizagem é vivenciada como o processo de toma-lá-dá-cá. Ou seja, o aluno precisa devolver ao professor o que dele recebeu e, de preferência, exatamente como recebeu.

No entanto, a Lei n. 9394/96, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), destaca a chamada avaliação formativa (capítulo II, artigo 24, inciso V, item a: “avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais”), vista como mais adequada ao dia-a-dia da sala de aula e como grande avanço em relação à avaliação tradicional, que se restringe tão somente ao somativo ou classificatório.

 

A condenação de procedimentos de “toma lá dá cá” ocupa inúmeras páginas das diretrizes de cada disciplina feitas pelo estado. O trecho acima foi extraído das diretrizes de Língua Portuguesa. E toda a produção científica sobre o assunto faz o mesmo, há pelo menos 70 anos.

Da mesma forma, aquele aluno que sabe ler percebe que o regimento da escola copiou, na íntegra, a deliberação estadual sobre recuperação. Mas que, no planejamento das professoras, o teor dessa deliberação e das LDBEN é claramente negado. Ambas as instruções falam em recuperação feita ao longo do período letivo, e que incide sobre a totalidade da nota. O que consta nos documentos da escola é uma recuperação valendo 6,0 pontos, referente àquele valor das provas, que já é, por si, proibido pela lei. A lei deixa claro que, na possibilidade de a escola realizar provas finais, esse período não conta como dia letivo, nem as recuperações dessas provas. Mas, em nenhum momento, a escola considera esses dias como não sendo letivos, o que torna problemático o cumprimento da carga horária anual.

Sem dúvida, é uma estratégia de favorecimento a toda a comunidade escolar. O processo de “toma lá dá cá” possibilita a prevalência da quantidade sobre a qualidade e da paráfrase como método de avaliação. (Aliás, a expressão “avaliação formal” é um sintoma evidente de que estamos lidando com analfabetos pedagógicos.)

Seria ingenuidade acreditar que essas leis sejam lidas ou conhecidas pelas pessoas que são pagas para impedirem que escolas descumpram leis federais ou estaduais. O que vai desde a pedagoga (que o governo paga para fazer enfeites de E.V.A., em todas as escolas, mesmo o Conselho Nacional de Educação estabelecendo como sua função a adequação da proposta pedagógica e das ações docentes, como se depreende aqui do trecho extraído do planejamento, ao que a lei determina), aos órgãos responsáveis por esse controle, como os Núcleos Regionais de Educação.

A insistência de todas as autoridades envolvidas, sejam gestores, pedagogos, coordenadores de núcleo, em dizer que eles fazem as suas próprias leis, é um sintoma claro de que há mais coisas envolvidas nessa distorção que apenas a ignorância de quem não consegue escrever um bilhete.

E, por falar em bilhete, segue abaixo o começo de um, feito por uma aluna de oitavo ano, considerada de nível excelente em sua escola. É o resultado de todo esse nosso sistema de favorecimentos. Esses profissionais todos são, em relação aos seus cargos, o que essa aluna é em relação às habilidades esperadas para sua série e idade. Tal como eles, ela também precisou da proteção de gente mal intencionada para chegar aonde está.